Em países considerados emergentes pelos mercados – incluindo-se entre eles o Brasil -, a volatilidade é sempre maior, devido ao volume mais expressivo de investidores estrangeiros que, como se sabe, operam no piloto automático, com ordens de stop loss, as quais significam: para um determinado nível de perda, a venda é automática.
É importante entender o comportamento dos gestores desses mercados. Os movimentos de venda e compra são síncronos. De modo geral, os gestores dão suas ordens de venda no stop loss e reaplicam, simultaneamente, em títulos do governo americano. Se os mares estão revoltos, a ordem é retornar ao conhecido porto seguro.
Como um país como o Brasil pode ser afetado?
No dia de maior turbulência, o Risco País subiu de 165 para 212 basic points. As pessoas podem questionar: os fundamentos da economia se deterioram assim tão rapidamente?
Ocorre que a metodologia de cálculo leva a essa oscilação, já que o Risco Pais acompanha a volatilidade de um portfólio composto por títulos brasileiros. Os robotizados - investidores com stop loss - dão ordem de venda a mercado, redirecionando seus investimentos para títulos do governo dos EUA. Daí decorre o aumento do Risco País.
A volatilidade do dólar (fechando a R$ 1,927, no dia 26 de julho, e a R$1, 897 no dia seguinte), pelo menos em grande parte, pode ser explicada também pelo movimento dos robotizados que deram ordem de venda no mercado brasileiro e direcionaram suas aplicações para os títulos americanos.
Deve-se ter em mente que quando os investidores estrangeiros entram comprando, muitos ficam animados com as sucessivas altas do Ibovespa. O outro lado da moeda é quando os robotizados dão ordem de venda, provocando queda nos preços das cotações.
Sobre tudo isso, alguns pontos para reflexão devem ser destacados, mesmo sem a pretensão de se esgotar o assunto.
Primeiramente, os ganhos dos investimentos no mercado de ações têm sido expressivos e é lícito esperar que movimentos de realização ocorram, sem que tenhamos aí o fim do mundo.
O segundo ponto é que movimentos de grande volatilidade não são bons para tomar decisões de venda. Por outro lado, podem originar oportunidades de compra; papéis com excelentes fundamentos e ótimas perspectivas podem ter seus preços deprimidos além da conta, quando os robotizados acionam o stop loss. Isso ocorre justamente por serem os papéis citados ações de grande liquidez e expostas, mais do que outras, ao efeito manada, o que faz com que investidores não robotizados e pouco informados vendam na segunda ou terceira onda de queda.
Em terceiro lugar, notícias sobre movimentos do Ibovespa causam alarme, mas nem sempre representam o que de fato esteja ocorrendo no mercado interno e no portfólio de cada investidor. Os diversos índices da Bolsa de Valores de São Paulo - BOVESPA - são importantes para verificar a tendência do mercado. Não devem, contudo, balizar situações individuais que estão correlacionadas com a estratégia de cada investidor.
O investidor estrangeiro tem uma participação de quase 35% na BOVESPA. O mercado é regulado pela Lei da Oferta e Procura; se a pressão vendedora é forte, o equilíbrio se dá pelo preço (o mercado cai). Ao entrar comprando, o investidor estrangeiro puxa o preço; ao sair vendendo, derruba o preço.
Existem riscos na economia mundial, liderada pela economia norte-americana (segmento mobiliário sub-prime); problemas no sistema bancário da Alemanha; preço do petróleo pressionando cada vez mais desconfortavelmente; geo-política estressada; enfim o mundo continua sendo mundo (e quando não existe um problema premente, alguém logo cria um).
Existem questões a serem resolvidas na própria economia brasileira e o governo, ao invés de concentrar seus esforços nas reformas necessárias e nos pontos fundamentais para que a economia possa crescer de forma sustentável, tem, perigosamente se deixado contaminar pelas intermináveis questões geradas pelo Poder Legislativo, que não se cansa de produzir casos e mais casos de desvios de conduta. É preciso colocar um basta nisso.
Mas os fundamentos da economia brasileira não mudam por causa das ordens de stop loss dos investidores robotizados. Nossas empresas continuam trabalhando, cada vez mais competitivas, sempre olhando para a frente, procurando aumentar a produtividade, o lucro, o dividendo e adotando práticas de governança corporativa que priorizam a transparência e a sustentabilidade.
Gostaríamos de finalizar esta mensagem com um alerta. Vários segmentos da sociedade ainda não perceberam que a Bolsa-Cassino foi eliminada da economia brasileira. O trabalho desenvolvido pelos diversos agentes econômicos, com destaque à Comissão de Valores Mobiliários - CVM - e à BOVESPA -, possibilitou termos uma bolsa técnica, com fundamentos, segurança e transparência.
Quem defende que a Lei da Gravidade se aplica à BOVESPA (tudo que sobe tem que cair) está prestando um grande desfavor à sociedade brasileira.
A Bolsa de Valores brasileira de hoje é uma casa com fundamento, na qual o cidadão e a cidadã podem aplicar suas poupanças com visão de longo prazo. No longo prazo, os robotizados serão superados por resultados e dividendos distribuídos pelas empresas com bons fundamentos.